Vi a trágica notícia de que um homem morreu ao se atirar na jaula de uma leoa na manhã deste domingo em João Pessoa. Impulsionado pelo mesmo instinto daquela leoa - ela pela caça, e eu pelo sórdido e insólito - continuei assistindo.
Segui lendo a reportagem e fui tomado de supetão por uma informação que me atravessou a consciência: era ele, aquele mesmo rapaz que há poucos dias vi no noticiário, o vaqueirinho de Mangabeira.
Não era qualquer pessoa, era o mesmo rapaz que dias atrás dava entrevista, o mesmo que fora preso 16 vezes e depredava a viatura da Polícia Militar para ser preso de novo. O vaqueirinho de Mangabeira, cujo nome oficial sequer se tinha notícia, dizia que estava fazendo aquilo já que não tinha trabalho.
A revelação sobre a quase identidade da vítima rasgou minha consciência sobre o que é ser humano. Ele queria estar nas grades para fugir da dessa forma tacanha de vida a que foi imposto. Anteontem foi solto pela polícia. Hoje se joga na jaula como último escape, paradoxalmente, fugindo da vida e servindo de comida a esta leoa.
Esta leoa é o Estado, com suas garras e dentes; esta leoa é a sociedade que assistiu e riu zombeteiramente daquela entrevista; esta leoa somos nós. Este homem não se jogou, ele foi atirado aos leões num coliseu de olhos virtuais.
O Estado que se furtou de proteger essa pessoa, que claramente necessitava de cuidados psiquiátricos - visível em sua entrevista, que foi preso 16 vezes, solto, que reclamava por estar desempregado. O Estado é Leão e Leoa - e gatinho de estimação para alguns.
"Ele morreu de fome, morreu de fome", se repete o texto de Fernando Sabino na minha mente.
Esta leoa é a fera que vive em nós; o bicho de Manuel Bandeira que revira o lixo atrás de comida, pois como disse Augusto dos Anjos: “o homem que nesta terra miserável vive entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”.
Gerson é seu nome - fico sabendo após sua morte. Ironicamente, ele morre num zoológico, um palco da vida, onde a humanidade se deleita com o espetáculo criado com a vida de outras espécies.
Seu corpo estava lá, exposto . Agora a sua dor é espetacularizada. Curiosamente, morre num órgão do estado, depois de ter passado por tantos outros. Caps, presídios, hospitais não lhe cuidaram. Fora jogado na cova dos leões.

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