quinta-feira, 2 de julho de 2026

A melhor derrota que eu já vi

Imagem gerada pela Inteligência Artificial Gemini

O silêncio absurdo que faz no quarteirão é o eco da calada de todo um país. Só as folhas dos galhos de castanhola balançam lá fora e na TV cinza de tubo no meio da estante alta de madeira um grito coletivo ecoa da transmissão: “Allez les Bleus”. Os vendedores de emoção da televisão já nem fazem questão de narrar o jogo. 

O ano é 1998. Tempo de Copa do Mundo como este agora. Assistimos à partida o meu avô Manoel, a minha avó Loló, todos os bonecos de biscuit que ela expunha caprichosamente no centro da mesinha de madeira e vidro do meio da sala, e eu, em plena infância, na altura do primeiro mundial que entendia, vivia e sentia. 

A trajetória até a final era de euforia, mas o craque Ronaldo não podia jogar a decisão, aquele mesmo que tinha o nome do meu pai. Este não seria o primeiro golpe do esporte. O macacão infantil de Senna ainda me acompanhava neste tempo, mesmo após quatro anos de sua trágica história nas curvas da vida.

O telefone roxinho de fio toca um som estridente rompendo o silêncio sepulcral daquela tarde muda. Era tio Zito. Meu avô está mais perto da mesinha do telefone, mas não arrisca esticar o fio para atender. Levanta e senta na cadeira com tela. É uma mesa específica para o aparelho, acoplada com a cadeira. Quase não o cabe, mas ele senta como se fosse um ritual necessário para poder conversar ao equipamento.

Com estes telefones quase não se escuta quem está com o ouvido no aparelho, mas magicamente quem está em volta parece ouvir melhor. “E aí, será que ainda dá?”, pergunta meu tio já sabendo a resposta do outro lado. O placar é o que vocês já conhecem: 3 a 0 para a França. Meu avô ensaia uma análise e os dois desligam.

O piso de azulejo encerado na sala grande parece refletir a imagem da TV no chão. Meus avós assistem sentados em duas poltronas de madeira acolchoadas reclináveis com dois banquinhos na frente para colocar os pés. Eu estou em um desses bancos dividindo espaço com as pernas já calejadas da minha avó. 

Os móveis têm um pé na França. A mesa da sala de jantar é Luís XV, com pés cabriolet, curvos iguais as pernas de Garrincha, ou da minha vó a essa altura do campeonato. Os 70 anos já lhe encontraram.  

Vem um vento da varanda onde está o Chevette marrom do meu avô e a namoradeira de madeira também Luís XV. Esse é o único sopro de alívio nesta tarde quente de João Pessoa. A TV transmite uma melancolia que se imprime em cada objeto. A trilha sonora poderia ser perfeitamente uma chanson francesa. 

O jogo finalmente termina. Meu avô aperta o botão da TV, que estava destacado para fora e o tubo vai fechando a imagem em preto na direção do centro até desligar, como se fosse um portal. A TV desliga, a história fica.

Não tem prorrogação de tempo, ele é implacável.

Como num mágico enredo de futebol, aquele menino assiste quase 30 anos depois aos jogos da copa, no ano em que a França é a grande favorita. A transmissão é pela internet e o telefone não toca mais. E este menino adoraria ver o Brasil perder de novo a grande final por 3 a 0 para a seleção francesa para que aqueles dois velhinhos ainda pudessem estar na torcida assistindo com ele.

Dona Loló e seu Manoel. Foto: Arquivo pessoal