Jornalismo em moldes poéticos, ou poesia de caráter informativo e crítico.
sábado, 11 de agosto de 2012
Dia-a-dia
Que bom que vocês podem escolher, Por que eu vou à força pra Pasárgada
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Primeiro amor
Quando as estrelas reinam no céu
a lua do nosso amor brilha mais que o sol em meu peito
fecho a porta do quarto e me deito
mas os olhos não fecham, a boca traqueja
e o coração acelera
A tua lembrança bate e rebate
com o som de um martelo judicial nas mãos da felicidade
ela sentencia o nosso amor e nos dá a liberdade
a nossa condicional foi assinada
por todos os promotores da verdade
Não sou juiz, tampouco sábio para fazer julgamento
mas absolvo todos os seus erros
pois tudo em você é perfeito
eu te quero do seu jeito
de cara limpa e com defeitos
A saudade não me incomoda
ela simplesmente reforça o que eu estou sentindo
é a certeza de que estivemos juntos
que o dobro do meu tudo
está guardado contigo
Se os olhos são o espelho da alma
Os seus são a porta do céu
Sublimes como crianças
Obscuros como véus
Quando eu não te conhecia, aliás,
como eu sofria, a noite me assombrava
o silêncio me calava, nem as paredes me ouviam
o telefone não tocava com a sua voz macia
perguntando sobre o meu dia
Ninguém ia me consolar
e escutar meus anseios
olhar além dos olhos, do coração e da alma
E mesmo sem dizer nada
contar o maior segredo
Esse que é o segredo da vida
que todos almejam encontrar
que o cientista pesquisa, que nem mesmo Freud explica
mas que só os enamorados
conseguem vivenciar
sábado, 12 de novembro de 2011
A matéria do dia
Contar os fatos a partir da minha rotina puxada e cheia de cobranças capitais se tornou redundantemente uma rotina. Mas não me envergonho e começo novamente esta história a partir das muitas preocupações que me afligiam antes de o jornal ir ao ar. Estava submerso em egocentrismo e preciosismo desmedidos, esperava ansioso pela exibição de uma produção minha. Não era o cuidado com o cadeirante que denunciava a falta de respeito para consigo que me deixava daquele jeito, mas simplesmente a minha satisfação pessoal em ver o meu produto em meio à opinião pública era que me impulsionava os olhos e a mente com demasiada força para a minha reportagem. Apoderei-me do que é notoriamente público e achava por direito ter patenteado em meu nome a vida das pessoas que encenavam o drama da vida real numa peça de teatro que produzi para telespectadores sofregamente carentes de boas e absurdas histórias. Parece que gostam de viver o sofrimento dos outros para esquecerem-se dos seus. Àquela altura a rispidez em meus atos aflorava, me contorcia a espera da grande reportagem, de muita repercussão e pouca intervenção social.
Sou convidado pelo porteiro da TV em que estagio para receber um homem que quer falar com o meu chefe. Subo imediatamente e em passadas largas, seguras, confiantes, pois estou habituado naquele ambiente. Penso em despachar rapidamente a pessoa que certamente cobraria uma matéria de comunidade falando sobre os buracos da sua rua. Isto não vale para mim, imagino que os grandes gênios somente construíram imaculadas obras primas. Ilusão!
Deparo-me com um senhor entre seus 40 e 50 anos sofridos, a corcunda denuncia o que o olhar e o sorriso amarelo por trás da barba descuidada me confirmariam. Conversarei com um pobre, merda! A violência da palavra pode chocar, mas certamente traz o que nosso íntimo e nossa mente castigada na sociedade do consumismo sentem. Sou indiferente às primeiras palavras proferidas pelo homem, mas a história me comove o necessário para lembrar que ainda sou cristão. Ele pede para que alguém o ajude, pois passa necessidades em casa. Mando aguardar e desço para enfim vislumbrar, certificando-me da minha inútil inteligência, a matéria que produzi. Sou tão contagiando pelo meu momento inteiramente auto-suficiente que esqueço de lembrar ao meu chefe sobre o homem.
Como estou de bom humor, depois dos imerecidos elogios no trabalho, resolvo atendê-lo e analisar o seu pedido. Encontro um outro homem, cabisbaixo, pensativo e, em seguida, agitado. Não consigo sequer chegar perto que ele se levanta e num surto voluptuoso por uma ajuda qualquer implora à minha frente para que o ajude. O homem é acompanhado pelo seu filho, que tem mais ou menos a minha idade, e eu os observo. O seu pedido é simples, quer algum dinheiro para comprar comida para a casa. Ainda assim, não sou tocado e tento administrar com frieza a situação, mas, num dado momento, numa ação instintiva e desesperada de quem encara diariamente os gritos da fome me vejo diante de um pai de família que implora por algum dinheiro. Como é triste ver um homem de respeito, de valor, do Sertão, ter que estender a mão a um esquálido filho de papai que nunca entendeu de perto o que é dormir agradecendo aos céus pela bolacha seca que dividiu com os irmãos. O pai me relata que a filha de sete anos e a esposa comeram um pedaço de melancia no almoço. É a denúncia de fracasso pessoal, ele ameaça baixar a cabeça, envergonhado de precisar confessar a um estranho que não está conseguindo botar comida na mesa. Ele tenta se convencer de que não é culpa dele e sim do sistema, mas no fundo um cabôco do Sertão da Paraíba quer bater no peito e dizer a todos que criou e deu de comer a seus filhos com muito trabalho e suor, mas sem deixar nenhum passar fome.
Agora sim sou tocado! Penso em como o filho dele, que teve oportunidades abruptamente destoantes das que vivenciei, poderia ter uma história diferente. Como posso julgar alguém pela sua classe? E como julgá-lo se ele se envolvesse no mundo do crime? Ver a irmã de sete anos e os pais passarem fome, além da própria fome sentida deve ser duro. Mas ele acompanha o pai e espera a minha resposta muito mais receoso do que o próprio pai. O único dinheiro que tenho tiro da carteira e o explico que apenas no outro dia poderei dar uma ajuda decente. Enquanto falo, seguro duas notas de dois reais. O filho observa e segue com os olhos cada movimento que faço com as mãos enquanto conversa, parece nunca ter visto dinheiro algum, ele tenta atrair com o magnetismo do estômago o dinheiro que seguro. É a certeza de uma janta digna antes de dormir. Sou tão ingênuo e amador que passo as notas receitando-lhes comprar um sanduíche, que mente essa minha! Certamente, o homem fará daquele pouco dinheiro que gasto diariamente com chocolate, a compra de um cuscuz, leite e pão.
Eles se vão na promessa de voltar no outro dia. Após o jornal é hora de descer para jantar o lanche que a TV compra na melhor padaria e nos fornece. Ao colocar um pó um os alimentos no microondas, lembro-me que já reclamei por termos apenas sete reais para fazer o nosso lanche. A analogia com o fato recém vivenciado por mim e o comentário nem precisam ser feitos. Eles dividem metade de uma melancia. Algumas pessoas me perguntaram se não seria um golpe, a estas pessoas digo que somente quem viu uma súplica estampada no olhar de quem sente fome tem a certeza, por alguns instantes, de que a mentira nunca existiu.
Um dia após o ocorrido passo a tarde inteira me perguntando sobre quanto dá a eles, pois eu havia prometido e promessa é dívida, ah se arrependimento matasse. É que depois da minha ótima noite de sono na minha casa confortável já nem lembro que me comovi com aquela história, mesmo assim resolvo dar-lhes vinte reais. É mais para me reassegurar da minha bondade e preocupado com a minha salvação do que qualquer outra coisa.
Como combinado, chego à porta do trabalho no meu carro, que eu tanto reclamo por não ter ar-condicionado, e avisto os dois à minha espera. O primeiro detalhe que observo é que as roupas são as mesmas de ontem, fui realmente contaminado por essa febre das aparências. Não quero nem perder muito tempo com eles, chego, desejo boa noite, tiro o dinheiro do bolso e lhes dou. Já me preparava para descer e engolir alguns sapos e matar alguns leões na redação quando decido observar os dois homens. O pai anda muito rápido com o dinheiro na mão, ele leva as mãos aos céus de instante em instante e agradece a Deus. O filho tem até dificuldade para acompanhar o seu compasso, ele corre, dá uma tapa nas costas do pai e diz: “tá vendo papai, conseguimos” enfim, se abrem em sorrisos longos e verdadeiros. Isto derruba a minha fortaleza que eu imaginava existir. Continuo parado olhando os dois, o meu sorriso é discreto, mas sublime, e acompanha os seus passos até o perder de vista.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Ode a um ídolo
Homenagem a todos os pais
A tua barba já está grisalha
E eu afago o teu pouco cabelo
O labor te deixou cansado
Mas o sorriso continua o mesmo
Tentavas esconder a angústia
Quando desabava o teu chão
Disfarçavas e sorrias pra gente
Mas o olhar guardava a preocupação
De nunca deixar faltar
O pão de cada em dia em nossa mesa
Não faltou, mas e se faltasse
O amor não faltaria com certeza
A custo e com muito suor
Trabalhavas dia a dia sem parar
E se estava difícil te calavas
Para não nos preocupar
Me desculpa se contigo não dividi
Tantos momentos bons de alegria
Se com outros procurei me divertir
Enquanto você em casa não dormia
Me desculpa quando eu só te procurava
Pra falar dos problemas que eu trazia
Das angústias, dos medos e frustrações
Que você pacientemente ouvia
Fostes o conselheiro, o meu
Fiel escudeiro, fostes o meu divã
E quando eu não tinha sono, cantastes
Mais que Caetano ou que qualquer Djavan
Quando uma porta sem piedade se fechava
Você me dava esperança
Eu cresci como sonhava
Mas o mundo me faz querer ser aquela criança
Que quando de medo chorava
Encontrava em teus braços o conforto
Deleitava o pequeno corpo em teu peito
E já se sentia seguro de novo
Pai eu fico descontente
Por não te trazer nenhum presente
Sei que isso não te deixa magoado
Pois o que importa é eu estar ao teu lado
O seu dever está cumprido
Já sou um homem formado
Se te recompensei, não sei
Mas, muito obrigado.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Matuto no cinema poetizada - de Rafael Melo
Matuto do interior
Nunca pude ser doutor
Nem fui filho de fazendeiro
Mas com os tustão que ganhei
Pra capitá viajei
Fui ver firme estrangeiro
Chegando da capitá
Em Itabaiana na praça
Comecei a discursar
E disse assim: “má rapá”
Eu fui lá na capitá rapá
E vi vi um firme mafioso
Pense num firme internacioná
Os matuto foram chegando
E a negrada se sentando
Pro mode me escutar
Aí eu disse que no firme
Três artista existia
O bandido que matava
O artista que salvava
E o artista que sofria
O bandido que matava
Digo isso sem mentira
Junto com os seus compassas
Armou uma grande trapaça
Amarrou com cipó de imbira
O artista que sofria
Mas esqueceu do que salvava
E pense numa falta de sorte
Do artista que sofria
Ele morreu de tentar
Mas porém não conseguia
Porque apesar de ser forte
Imbira dos Estados Unidos
Num tem no mundo quem se solte
Perigoso que só buchada azeda
Invocado que só fiscal de gafieira
Mais sério que um porco mijando
A carona do bandido
Na tela foi se alargando
Pois o bandido bicho apontou o dedo
Bem na cara do artista
Que de nada tinha medo
E amarradinho na imbira
Ouviu o bandido falar
Num sei quê lá, Num sei quê lá
Num sei quê lá, Num sei quê lá
Mas ele num se amedrontou
O bicho era muito macho
olhou para o bandido tranquilo
Olhou para cima de baixo
E amarradin assim no chão
Disse: “Num sei quê lá
Num sei quê lá o que meu irmão?”
Meu amigo esse bandido
Ficou meio enfurecido
E feito um cururu no sal
Pegou o artista pela nuca
E disse: “Num sei quê lá,
Num sei quê lá o que?
Seu felá da puta”
Mas o artista tava era calmo
E continuou tranquilo
Olhou para cara do bandido
Má rapái e disse: “Num sei quê lá,
Num sei quê lá um carai?”
Má o bandido pegou um ah
Disse num tem quem me segure
Pegou uma chibata com a mão
Feita de pneu de girola de caminhão
Mais comprida que língua de manicure
E deu-lhe uma chibatada
Má foi tão aparentada
A um coice de besta parida
Que da tábua do queixo
Ao corte oreia do artista
Ficou escrito o nome
FIRESTOOONE
Eu sei que no meio dos bandido
Tinha um ator infiltrado
Que era do lado do artista
E tava mais camuflado
Que rapariga de pastor
Num tinha quem desconfiasse
Num tinha quem desconfiasse
Aí ele se encostou
Num cantinho assim do lado
E ele tinha um relógio
Pra telefone puxado
E ele passou o bizú
Pra polícia lá embaixo
E quando todos podiam escutar
O ator disse: “Num sei quê lá,
Num sei quê lá, Num sei quê lá”
E a polícia toda atenta
Ouviu tudo pelo rádio
Mas nos Estados Unidos
A polícia não é polícia
Se veste de adevogado
Eu sei que depois de feito
Todo o comunicado
A polícia passou um rádio
Chamou os outros ligeiro
Disse: “Acuie, acuie, acuie
todos os carros que o
negócio é dismantelo
Aí os carros acuiaram
Os carros acuiaram
Os carros acuiaram
E quando no local chegaram
Aí é que foi dismantelo
No prédio tinha mais carro
Que número de romeiro
Nos pés de padim padre Ciço
Na cidade de Juazeiro
O prédio era um prédio grande
Tinha uns dois ou três andares
Igual à prefeitura de Campina Grande
Mas num tinha quem entrasse
E nesse meio termos
Fecharam a avenida
E a polícia tome corda, tome corda
para salvar o artista
má deu uma revira-volta
E assim de última hora
Quando achava que era polícia
Veio o momento mais arrepiador
O artista principal chegou
Era o artista que salvava
Que veio salvar o outro artista
Ele veio naquele avião
Que tem uma peneira em cima
E ele num voava não
Ficou parado na prefeitura
Lá de cima ele avistava
Em baixo as viatura
E o povo avistava ele
Pela capota de vrido
Com dois cinturão de bala
E nas mãos uma espingarda
Com um canozão comprido
E os matuto me escutando
Sentado em cima de uns jegue
Aí eu disse o nome do artista
Arnudo Ichuazinegger
Má preste atenção meu irmão
Porque num é desses Ichuazinegger
Que dá no cu de qualquer moleque
Nascido no sertão não
É Ichuazinegger importado
Que num existe na Paraíba
Ou é da Checoslováquia
Ou então é da Bolívia
Aí o motorista mandou
Ichuazinegger dá um sarto
Ele pulo do avião
Quebrou logo o telhado
Depois furou a laje
E caiu no meio da sala
onde o artista tava amarrado
E antes que os bandido se ajeitasse
Ichuazinegger cheio de enfeite
Pegou tudo desprevinido
Cumeno cuscuz com leite
Ichuazinegger pegou a pistola
E se escorou num cantin
Começou a atirar
Num sei quê lá, Num sei quê lá, Num sei quê lá
Pois num é que matou tudim
Aí foi que apareceu bandido
E foi briga de cem metido a metro
Ele deu um tabefe danado
No bandido Mané Tapadi
Que logo soltou um berro
E feito uma jaca mole
caiu no chão de cu trancado
Aí um bandido atrevido
Homilhou o nosso artista
Agrediu-o com uma dedada
Onde as costas faz a virada
Onde ela muda de nome
No olho que num vê nada
O artista ofendido
Na região delicada
Entre a rapidez da dedada
E a velocidade do epa
Se escorou assim numa mesa
E com a fúria de 150 siri
Numa lata de querosene
Apontou a buduada
Acertou mermo na cara
E no serrote dos dente
O que choveu de canino
De molar e de incisivo
Fez chapa pra um mói de gente
Nesse momento o bandido
Correu já ia escapar
O artista com a espingarda
Começou a atirar
Tiro foi mais de setenta
Que a gente no cinema
Teve que se abaixar
Daquelas letrinha que passa
Derrubou um mói minha gente
Era bala de cartucheira
Que chega o telão ficou quente
Das letras sobraram três
Eu digo para vocês
Era um F, um I e um M
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Ode à minha mãe
Eu precisava voltar
Só por uma vez tomar o seu café sem reclamar
Sentir o cheiro da sua comida pela casa inteira
E te dizer que ela é a mais perfeita
Compreender o gosto com que fazias tudo pra mim
O amor com que te acordavas cedo
Preparava o meu café, e antes de eu sair
Pra batalha de um dia inteiro
A proteção que eu ganhava
Com o amor do teu beijo
Entender o teu sorriso ao ver minha felicidade
E mais nunca te coibir, tentar te calar,
Ou te boicotar, por todas as minhas conquistas
À vizinhança contar
Agora eu sei, era orgulho
Nunca entendi isso, por nunca ter sido maduro
Por em seus braços ser uma criança
Que alimentava as suas esperanças
De ser um homem de futuro
Não quero jamais frustrar
O entusiasmo de quando vinhas me falar
Que contastes a todos do meu sucesso
Pois na minha pequenez diante do universo
Eu não pude enxergar a satisfação de uma mãe
Em dizer criei meu filho para um caminho são
Eu queria pedir perdão
Pelas vezes em que, preocupado com os problemas da vida,
Deixei de te dar bom dia, de beijar a sua mão
No momento em que pedia a bênção
Correndo, apressado pela insatisfação
De não ser completo para o mundo
Mas, esquecendo de ser completo para a minha mãe
Eu sei que não fui bom filho
Que não te tratei como mãe
E isso é uma frustração sua que você nunca vai manifestar
Pois você prefere me preservar
Isso é natural, um amor incondicional
Que faz a boca silenciar, quando o peito quer gritar
Mãe, te amo e isso basta
Sei que falar isso te conforta
O céu torna a ser azul e o sol entra pela porta
Quantas vezes me dissestes exatamente isso
E eu dizia também te amo só pra me deixares ir embora
Ou quantas vezes nem respondi e a senhora ouviu a porta
Fechando devagarzinho, eu já do lado de fora
Mas fazias questão de gritar novamente: te amo
Eu ficava irritado, as pessoas na rua passando
Me faziam sentir vergonha, mas isso já não importa
Tudo o que eu queria é que você me levasse à escola
E de mãos dadas me beijasse na frente dos amiguinhos
Mas vou te dar um beijo agora
Dizer: te amo, me perdoa, você é a razão da minha história